Ser professor
Assistir a uma palestra de Demo mexe com a mente de qualquer professor. E o motivo é simples: ele revira tudo aquilo que entendemos de sala de aula. Desconstrói a figura do professor e o modelo de ensino vigente na maioria das escolas e universidades brasileiras. Defende o argumento de que a aprendizagem somente acontece em um ambiente onde professores e alunos são parceiros na (re)construção do conhecimento por meio da pesquisa. Condena, sem papas na língua, os professores que só sabem "dar aula”. Sem aula, o professor fica sem chão.
Abaixo, temos dois fragmentos da palestra para debatermos e confrontarmos com as nossas concepções do que é ser professor.
“O professor tem que ser autor para exigir do aluno que ele seja autor”.
“Professor que não produz não é professor. Não é doutorado que faz professor. O que faz alguém ser professor é que seja autor.”
Uma questão para começarmos:
É possível ser professor sem dar aula? Sem escrever? Por que?
Comments (12)
Gustavo said
at 11:08 am on Mar 11, 2009
O professor não necessariamente necessita estar em uma sala de aula exercendo a atividade de "dar aula" para ser considerado um professor. Claro, a experiência nesse meio ajuda e pode qualificar para o processo de aprendizagem. Entretanto, o professor deve ser é capaz de produzir dentro de sua área para ter a possibilidade de exigir também do aluno alguma produção. Tal produção por parte do aluno é o que irá gerar de fato o aprendizado e, sendo assim, é parte fundamental do processo. O aluno que é capaz de produzir é capaz de demonstrar que sabe o que lhe é solicitado. O professor que produz é capaz de mostrar aos seus alunos como ocorre o processo de aprendizagem, o que é esperado deles e tem, também, o direito de exigir tal produação dos mesmos. O que não produz, por outro lado, não terá como mostrar ao aluno tal processo. Na verdade nem terá a idéia clara de solicitar isso dos alunos, pois ele mesmo não tem uma noção exata do que seria tal produção.
Luciana said
at 11:10 am on Mar 11, 2009
O que é dar aula? Isto é um conceito bastante inexato. Depende muito da disciplina que estamos ensinando. No ensino de línguas, por exemplo, a conversação é bem mais importante do que escrever.
Janaína Oppermann said
at 11:13 am on Mar 11, 2009
Outro comentário do Professor Pedro Demo relaciona as novas alfabetizações que acontecem fora da escola. Os alunos aprendem com outros grupos, outras vivências e a escola não esta mais conseguindo suprir as demandas que os jovens almejam. Aqui caberia discutir a representação de professor... quem é esse sujeito? Aprendemos com a vida, os grupos populares, os movimentos sociais. Acredito que podem nos ensinar aqueles que não são professores instituidos. Contudo, no espaço escola e universidade, como o Pedro Demo salienta, esse há de ser pesquisador, pois quando não se pesquisa não temos o o que ensinar....
Marcelo said
at 3:58 pm on Mar 16, 2009
Luciana,
Dar aula pode ser entendido como um meio de passar informações de forma vertical e unilateral para os ouvintes. Existem professores que trabalham assim, sem refletir sobre as informações. A reflexão e a problematização dessas informações não são trabalhadas. Esses professores são simplesmente "ensinadores". Agora, quem garante que os alunos estarão aprendendo?
Marcelo said
at 3:59 pm on Mar 16, 2009
Gustavo,
Conheço um professor de história que consegue de seus alunos produções textuais muito interessantes. Esse mesmo professor fez mestrado, mas não está produzindo mais nada. Apenas exige que os seus alunos produzam. Fica uma questão: como pode o professor que produziu apenas na época do mestrado, tirar o melhor de seus alunos?
Marcelo said
at 4:11 pm on Mar 16, 2009
Janaína,
Certamente aprendemos muito fora dos muros da escola. Mas aquilo que aprendemos fora da escola pouco tem relação com tudo que a escola pode ensinar aos seus alunos. Acredito que boa parte do que aprendemos fora da escola recai sobre o senso comum. E um dos papéis do professor é mostrar diferentes oportunidades de aprender, como por exemplo, transformar informações em conhecimento. Que competências um professor precisaria ter para alcançar o que a vida, os grupos populares e os movimentos sociais ensinam?
Janaína Oppermann said
at 10:50 pm on Mar 16, 2009
Olá Marcelo, considero teu comentário instigante, contudo, discordo contigo no sentido de que o que se aprende fora da escola pouco tem relação com todo potencial que a escola pode oferecer. Em quantidade sim, concordo, mas em representação? Quanto esse conhecimento que (de uma experiência pessoal) foi valorizado e reelaborado com o conhecimento escolar pode fazer um novo sentido para vida desse aluno... E ainda acredito que o que aprendemos fora do espaço instituído de ensino pode nos ensinar tanto quanto fora dele. Por exemplo, alunos de biologia do RS vão trabalhar com povoados rurais no sem-árido; estudam o ambiente, as especificidades locais (mas, teoricamente) quando vão praticar esse conhecimento adquirido na pesquisa dentro da universidade percebem que a comunidade local já tem seus recursos para se adaptarem a seca. O que os estudantes levam já é feito, mas de outra maneira não científica, mas, praticada. Quem aprende aí? a gurizada da faculdade ou a população local?
As competências do professor em relação ao que a vida ensina... realmente há de se pensar um bom tempo nisso... não saberia dizer muito, mas, a valorização da experiência do aluno é uma delas...
Fernanda Lemos said
at 9:15 pm on Mar 17, 2009
A desconstrução do modelo de professor que apenas dá aula é interessante, e torna-se mais interessante ainda quando pensamos no professor-autor, aquele que também produz para poder exigir produção dos alunos. Ano passado solicitei uma produção textual dos alunos que deveria ser entregue na aula seguinte. A fim de estimular meus alunos a lerem seus textos, eu escrevi um texto nos moldes do solicitado e iniciei a tarefa de leitura com a minha produção. Foi uma experiência muito bacana, os alunos passaram a atribuir mais valor àquela atividade, visto que "até" o professor a realizou. Percebi que esse ato mostrou aos meus alunos que aquele não era um texto apenas para avaliação, para atribuição de nota, artificial. O simples ato de me tornar autora, deu um novo valor à produção textual em sala de aula.
Angelo Brandelli Costa said
at 6:10 pm on Mar 19, 2009
O vídeo é muito bom.
Sobre a pergunta se é possível ser professor sem dar aula? Sem escrever? Por que?
Eu acho que é possível sim ser professor sem dar aula. Aula é apenas uma das tecnologias pedagógicas que o professor dispõe p ensinar. Não é o cerne de um espaço de ensino-aprendizagem.
Já a escrita, acho que é fundamental. Escrever é uma forma de rever aquilo que se sabe, de repensar, de pesquisar. Pesquisar em inglês é Research. Buscar novamente. rever.
A aula deveria ser o espaço onde se apresenta o conteúdo dessas pesquisas e além disso o momento onde se desperta nos alunos a vontade de também pesquisar.
Marcelo said
at 6:20 pm on Mar 21, 2009
Fernanda,
Quando comecei a trabalhar produção textual em sala de aula, tive a mesma sensação que você. Os alunos passaram a dar maior valor para esse tipo de trabalho. O mais interessante dessa experiência foi que a sala de aula virou um ambiente de autoria e crítica coletiva durante um bom tempo.
Cris said
at 6:25 pm on Mar 23, 2009
Discordo de alguns pontos da palestra, mas é muito interessante.
Não tinha me de parado com estas questões e levo tempo para refletir sobre algumas coisas.
A única certeza que tenho é que ser professor é abrir os horizontes alheios, trazendo informações, conhecimentos, opiniões que possam enriquecer o outro, sem necessariamente saber tudo de tudo.
Neste momento acredito que todas as pessoas e não apenas os professores são pesquisadores. Qualquer pessoa que se interesse por qualquer assunto pode pesquisar e, a partir desta pesquisa se tornar autor. Entendo por autor aquele que resignifica (re-significa?) e amplia o seu conhecimento prévio. Acontece que a pesquisa constante (mesmo que inconcientemente) é algo que se espera de um professor, afinal ele tem que se reciclar.
O professor será esta pessoa comum, pesquisando sobre algo comum, mas com um fim pré-estabelecido, ou seja, sou professora de espanhol, pesquiso sobre a cultura/ língua/ literatura (etc) referente à lingua espanhola e, no momento em que estou dando aula, estou sendo autora.
Assim que não me parece que para ser autor é necessário escrever. A simples troca de idéia do professor com o aluno já o faz autor. Da mesma forma, não me parece que para ser professor tenhas que dar aula. Eu posso estar dando aula e não ser uma boa professora, porém posso levantar um questionamento para um aluno e abrir outras possibilidades que ele não tenha pensado. E neste momento em que eu não estava exatamente dando aula, tenha sido "mais professora".
Ainda não escrevi nenhum artigo científico, nenhum capítulo de livro, etc. Assim não sou considerada autora? nem pesquisadora? e por último mas não menos importante: não sou professora?
Fernanda Lemos said
at 10:41 pm on Mar 23, 2009
Cris,
acho que o termo autor (tanto para o professor quanto para o aluno) não se refere apenas a textos publicados ou científicos, mas sim qualquer gênero textual produzido com autonomia e criticidade. Sendo assim, toda produção é um texto, seja ela escrita ou simplesmente falada. Já não é de hoje que nós, estudantes de letras, sabemos que tudo é texto.
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